O avião que levou Richard Nixon a Pequim pousou em 21 de fevereiro de 1972. A imagem do presidente americano descendo a escada e, horas depois, cumprimentando Mao Zedong sugeria uma mudança súbita. Nada nela mostrava os recados transmitidos por terceiros, o desaparecimento encenado de Henry Kissinger durante uma escala no Paquistão ou as negociações em que cada lado tentou preservar posições incompatíveis sobre Taiwan.
Estados Unidos e República Popular da China estavam sem relações diplomáticas desde 1949. Haviam combatido na Guerra da Coreia; tropas americanas protegiam Taiwan; Washington ainda reconhecia o governo de Chiang Kai-shek como representante da China. Pequim, por sua vez, apoiava o Vietnã do Norte e descrevia a presença militar americana na Ásia como imperialismo. A visita não apagou esse passado. Ela nasceu da conclusão de que a hostilidade automática já servia menos aos interesses dos dois governos do que um contato cuidadosamente limitado.
Dois intermediários para uma aproximação improvável
Nixon tratava da possibilidade antes de existir um canal confiável. Em março de 1969, disse a Charles de Gaulle que, no longo prazo, os Estados Unidos deveriam construir relações paralelas com União Soviética e China, reconhecendo ambas como grandes potências. Meses depois pediu a Nicolae Ceaușescu, presidente da Romênia, que ajudasse a transmitir mensagens a Pequim. No Paquistão, conversou com Yahya Khan sobre a reinserção chinesa na política internacional. A cronologia diplomática do Departamento de Estado registra os dois caminhos já em 1969.
Eles não eram equivalentes. A Romênia, integrante do Pacto de Varsóvia que cultivava certa independência de Moscou, servia para testar intenções políticas. O Paquistão tinha relação direta com a China e ofereceu o canal operacional que acabaria produzindo a viagem secreta de Kissinger. A duplicidade protegia a iniciativa contra falhas e permitia comparar respostas.
O método também revela como Nixon e Kissinger queriam conduzir a política externa. Em outubro de 1970, Kissinger garantiu aos romenos que qualquer comunicação chinesa ficaria restrita à Casa Branca. No mesmo período, Nixon insistia que os contatos importantes deveriam permanecer privados. Os registros desses intercâmbios mostram tanto a necessidade real de sigilo quanto a concentração do processo num círculo que desconfiava da burocracia diplomática. A abertura foi uma operação de Estado, mas não uma operação conduzida pelos canais ordinários do Departamento de Estado.
Pequim também calculava riscos. A Revolução Cultural ainda afetava o país, a relação com Moscou chegara a confrontos armados na fronteira em 1969 e a União Soviética mantinha superioridade militar. Um entendimento com Washington ampliava a margem chinesa sem exigir aliança. Para os Estados Unidos, conversar com a China obrigaria Moscou a considerar que uma política agressiva poderia aproximar seus dois adversários. A chamada diplomacia triangular não significava que Washington controlava o triângulo; significava que cada lado passou a medir suas decisões em duas relações, não apenas em uma.
A viagem que precisou parecer outra viagem
Em julho de 1971, Kissinger viajou oficialmente ao Paquistão. Durante a visita, alegou indisposição e retirou-se por dois dias. Um avião paquistanês o levou a Pequim, onde ele e Zhou Enlai conversaram por longas horas. A encenação evitava que o encontro fosse destruído antes de produzir um acordo sobre a visita presidencial.
O memorando da primeira conversa entre Kissinger e Zhou é menos triunfal do que a lembrança posterior. A lista de assuntos começava por Taiwan e incluía Indochina, União Soviética, Japão, Sul da Ásia e a criação de um canal seguro sob controle dos dois líderes. Kissinger reconheceu Taiwan como a principal questão bilateral; Zhou não a tratou como detalhe negociável.
O problema era concreto. Pequim exigia a retirada das forças americanas do estreito e rejeitava qualquer fórmula de “duas Chinas”. Washington não pretendia abandonar imediatamente o governo de Taiwan, nem podia fazê-lo sem custo perante aliados como o Japão. A aproximação ainda podia alarmar Tóquio: o governo japonês recebeu pouco aviso sobre o anúncio de julho de 1971, embora a aliança com os Estados Unidos fosse central para a segurança regional. A política que ampliava as opções americanas também criava insegurança entre parceiros que não haviam participado do segredo.
Kissinger voltou com o convite. Em 15 de julho, Nixon anunciou pela televisão que visitaria a China. O efeito público foi enorme porque o trabalho preparatório permanecera invisível. A iniciativa tinha, além disso, a proteção peculiar das credenciais anticomunistas do próprio Nixon. Um presidente identificado havia décadas com o combate ao comunismo podia defender o contato sem enfrentar exatamente a mesma resistência que imporia a um adversário democrata. Isso facilitou a mudança; não a tornou inevitável.
Um comunicado que expôs o desacordo
Durante a visita de fevereiro de 1972, Nixon encontrou Mao uma vez e manteve sessões extensas com Zhou. O documento mais duradouro não foi uma aliança nem o reconhecimento diplomático, mas o Comunicado de Xangai. Sua forma era incomum: em vez de esconder divergências sob frases vagas, cada governo expôs sua leitura da ordem internacional.
Na seção sobre Taiwan, os Estados Unidos declararam reconhecer que chineses dos dois lados do estreito sustentavam haver uma só China e que Taiwan fazia parte dela. Washington não contestou essa posição, mas tampouco adotou naquele momento a reivindicação de soberania de Pequim. Acrescentou interesse numa solução pacífica e vinculou a redução de forças americanas à diminuição da tensão regional. A redação permitiu iniciar uma relação enquanto adiava a incompatibilidade central.
Outra passagem registrou a oposição dos dois países à busca de hegemonia na Ásia. A linguagem atingia a União Soviética sem transformá-la em inimigo formal comum. A China continuava revolucionária e os Estados Unidos mantinham suas alianças; ambos, contudo, tinham razões para impedir que Moscou dominasse o equilíbrio euro-asiático. Era cooperação por interseção de interesses, não por convergência de regimes.
O comunicado previu contatos entre governos, intercâmbios científicos, culturais e esportivos e expansão gradual do comércio. Não estabeleceu embaixadas. A normalização completa só ocorreria em 1979, no governo Jimmy Carter. Mesmo depois disso, Taiwan continuaria a condicionar a relação.
O preço e a medida da mudança
A abertura alterou o ambiente em que Washington negociava com Moscou, mas não explica sozinha a détente ou os acordos SALT. A União Soviética já tinha razões próprias para controlar custos nucleares e estabilizar a relação com os Estados Unidos. Da mesma forma, Pequim não se tornou instrumento americano: apoiou o Vietnã do Norte, preservou sua política revolucionária e usou o contato para seus objetivos de segurança e reconhecimento.
Também houve terceiros afetados. Taiwan perdeu o assento chinês nas Nações Unidas em 1971 e enfrentou um processo de redução do reconhecimento diplomático. O Japão precisou adaptar rapidamente sua política. O Paquistão, que facilitara o canal secreto, entrou em guerra com a Índia no mesmo ano, expondo como a aproximação com a China se cruzava com conflitos regionais que não cabiam numa narrativa simples de paz entre grandes potências.
O resultado de 1972 foi, ao mesmo tempo, mais modesto e mais importante que uma reconciliação. Washington e Pequim não resolveram Taiwan, não encerraram a Guerra do Vietnã e não passaram a compartilhar uma visão de mundo. Criaram uma relação política onde antes havia contato indireto e hostilidade quase ritualizada. A fotografia de Nixon e Mao marcou a memória pública; a mudança histórica estava no mecanismo construído antes dela e na decisão de registrar, no mesmo documento, aquilo em que os dois governos concordavam e aquilo que ainda não podiam conciliar.
