O trabalho em Whittier
Richard Milhous Nixon nasceu em 9 de janeiro de 1913, numa casa construída por seu pai em Yorba Linda, Califórnia. Era o segundo dos cinco filhos de Francis “Frank” Nixon e Hannah Milhous Nixon, numa família quaker de recursos modestos.
O sítio de cítricos não prosperou. Em 1922, a família mudou-se para a região de Whittier, onde Frank abriu um posto de gasolina e uma mercearia. Os filhos ajudavam no comércio. O trabalho fazia parte da vida de Nixon desde cedo, junto com a escola e as responsabilidades de casa.
A família também enfrentou perdas difíceis. Arthur morreu aos sete anos, em 1925; Harold, aos 23, em 1933, depois de anos de tuberculose. A disciplina religiosa, o esforço dos pais e a convivência com essas dificuldades pertencem à história de sua formação.
A oportunidade de estudar
Em 1930, Nixon teve a oportunidade de estudar em Harvard. A biografia de Paul Carter, Richard Nixon: California’s Native Son registra uma oferta de bolsa. Ele escolheu permanecer em Whittier. Ao explicar essa decisão mais tarde, recordou que a família precisava de seu trabalho na loja: Harold continuava doente, e as despesas médicas eram grandes.
Nixon frequentou o Whittier College entre 1930 e 1934. Participou de debates, teatro, governo estudantil e futebol americano. Ajudou a fundar a Orthogonian Society, que oferecia uma alternativa a um círculo estudantil já estabelecido.
Seu treinador de futebol americano era Wallace “Chief” Newman. Já presidente, num discurso em dezembro de 1969, Nixon o recordou como um dos homens que mais o haviam influenciado. Lembrou o tempo que passava ao lado dele no banco de reservas e disse ter aprendido com o técnico mais sobre a vida do que sobre futebol. Na cerimônia de Blue Lake, em 1970, voltou a evocar a firmeza de caráter de seu treinador indígena.
Seu desempenho em Whittier lhe abriu o caminho para uma bolsa na Duke University School of Law. Ali presidiu a associação estudantil e participou da revista jurídica. Formou-se em 1937 e voltou à Califórnia para exercer a advocacia.
Pat e a vida em comum
Nixon conheceu Thelma “Pat” Ryan numa produção de teatro comunitário em 1938. Casaram-se em 1940 e tiveram duas filhas, Tricia e Julie. Pat acompanharia sua vida pública e desenvolveria sua própria atuação como primeira-dama.
A separação durante a guerra deixou cartas que mostram seu afeto por ela. Na carta do Dia de Ação de Graças de 1943, publicada pela Richard Nixon Foundation, Nixon escreveu que as palavras de Pat lhe davam ânimo e agradeceu sua inteligência, criatividade e consideração. Pensava no que ainda poderiam viver juntos.
Serviço na Marinha e entrada na política
Em 1942, Nixon ingressou na Reserva Naval. Serviu como oficial de transporte aéreo no Pacífico Sul e depois trabalhou com contratos da aviação naval. Deixou o serviço ativo em 1946 como tenente-comandante.
Durante o serviço, aprendeu a jogar pôquer. Seu colega James Stewart recordou a paciência com que Nixon esperava uma boa mão e o dinheiro que enviava para casa. A entrevista de Stewart à PBS registra essa lembrança. Os ganhos ajudaram a financiar parte da campanha de 1946, como Nixon contou em suas memórias, em trecho reproduzido pela HISTORY.
Em setembro de 1945, o banqueiro Herman Perry o convidou, por carta, a disputar uma cadeira na Câmara contra Jerry Voorhis. Nixon venceu a eleição de 1946 e assumiu em janeiro de 1947. Trabalhou em questões de educação e relações trabalhistas e integrou a comissão que estudou o Plano Marshall.
Sua atuação no caso Alger Hiss, investigado pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, deu-lhe projeção nacional. O comitê ouviu Whittaker Chambers e examinou documentos relacionados ao antigo funcionário do Departamento de Estado, posteriormente condenado por perjúrio. Nixon tornou-se conhecido pela persistência com que acompanhou o caso.
Em 1950, foi eleito para o Senado ao derrotar Helen Gahagan Douglas. Dois anos depois, Dwight Eisenhower o escolheu para a chapa republicana. Durante a campanha, Nixon apresentou pela televisão as finanças da família no discurso conhecido como “Checkers”. Foi eleito vice-presidente.
O aprendizado internacional
Entre 1953 e 1961, Nixon exerceu a vice-presidência e viajou por dezenas de países. Nas missões do governo Eisenhower, conheceu dirigentes estrangeiros e acompanhou os conflitos da Guerra Fria fora de Washington. Essa experiência diplomática seria parte importante de sua preparação para a Presidência.
Em 1958, sua comitiva foi atacada em Caracas. No ano seguinte, encontrou Nikita Khrushchev numa exposição americana em Moscou. O “debate da cozinha” colocou frente a frente dois representantes de sistemas rivais e mostrou a disposição de Nixon para defender suas posições numa conversa direta.
Livros e música
Nixon lia também romances. Na entrevista a Frank Gannon, em maio de 1983, recordou ter lido Guerra e Paz na faculdade. Admirava a maneira como Tolstói descrevia as pessoas: os personagens haviam ficado em sua memória.
A leitura de história e biografias continuou na Presidência. O relato da Richard Nixon Foundation sobre seus hábitos de estudo menciona a biografia de Benjamin Disraeli escrita por Robert Blake, a obra de Winston Churchill sobre a Primeira Guerra Mundial e as memórias de Charles de Gaulle. Segundo esse relato, Nixon buscava na experiência de outros governantes ideias para pensar a política externa.
O piano também tinha lugar em sua vida. Em 29 de abril de 1969, a Casa Branca celebrou os 70 anos de Duke Ellington. Nixon lhe entregou a Medalha Presidencial da Liberdade e elogiou uma música capaz de atravessar fronteiras e preconceitos. Depois, sentou-se ao piano e acompanhou os convidados que cantavam “Happy Birthday”. O registro da cerimônia conserva suas palavras e esse momento da homenagem.
Derrotas e perseverança
Em 1960, Nixon recebeu a nomeação republicana à Presidência e disputou a eleição com John Kennedy. Perdeu por menos de 120 mil votos populares, numa campanha marcada pelos primeiros debates presidenciais televisionados.
Dois anos depois, foi derrotado por Pat Brown na eleição para governador da Califórnia. Sua entrevista coletiva na manhã seguinte pareceu anunciar o fim da carreira política. Nixon mudou-se para Nova York, retomou a advocacia e continuou a apoiar candidatos republicanos.
As campanhas de 1964 e 1966, as viagens e os contatos partidários ajudaram a reconstruir sua posição nacional. Em 1968, conquistou novamente a nomeação. Venceu Hubert Humphrey numa eleição que também teve a candidatura de George Wallace e chegou à Casa Branca em 20 de janeiro de 1969.
Entre a derrota na Califórnia e a vitória presidencial, Nixon passou seis anos sem mandato. As viagens e as campanhas por outros republicanos conservaram relações que depois sustentariam sua candidatura. O retorno à Casa Branca foi precedido por esse trabalho de reconstrução.
As realizações da Presidência
Nixon assumiu num país dividido pela Guerra do Vietnã e por conflitos internos. Sua administração criou a Environmental Protection Agency, sancionou a NEPA e as emendas ao Clean Air Act e ampliou a aplicação da dessegregação escolar no Sul. Saúde, educação e organização federal também estiveram entre suas prioridades.
Defendeu a autonomia das comunidades indígenas e sancionou a devolução de Blue Lake a Taos Pueblo, em 1970. A lei protegeu os usos religiosos e tradicionais dessas terras.
Na economia, as decisões de 1971 suspenderam a convertibilidade do dólar em ouro e introduziram controles temporários de preços e salários. O governo procurava responder à inflação e às dificuldades do sistema monetário internacional.
Na política externa, Nixon levou à Presidência o interesse pelas relações entre as grandes potências. Em fevereiro de 1972, visitou a China e abriu um canal político direto com sua liderança. Em maio, foi a Moscou e assinou os acordos SALT I, que incluíam o Tratado ABM, com Leonid Brezhnev. As duas viagens deram resultados à decisão de negociar com adversários.
No Vietnã, reduziu a presença de tropas americanas e transferiu responsabilidades ao governo sul-vietnamita. Os Acordos de Paris foram assinados em janeiro de 1973, permitindo a retirada americana e o retorno dos prisioneiros de guerra. A trajetória do conflito continuaria no Vietnã após a saída dos Estados Unidos.
Nixon foi reeleito em 1972 com vitória em 49 estados e quase 61% do voto popular. Em agosto de 1974, anunciou sua renúncia e deixou a Presidência no dia 9, quando Gerald Ford assumiu o cargo.
Uma nova etapa de trabalho
Depois de deixar a Casa Branca, Nixon voltou à Califórnia e dedicou-se à escrita. Publicou nove dos dez livros de sua vida depois da Presidência. As memórias saíram em 1978. Em Leaders, de 1982, reuniu lembranças dos dirigentes que conhecera e suas avaliações das decisões que tomaram. Seu último livro, Beyond Peace, foi publicado em 1994.
Em março de 1994, aos 81 anos, viajou à Rússia para conhecer de perto a situação do país. Antes de partir, conversou com Bill Clinton sobre os encontros que pretendia realizar, inclusive com líderes da oposição. Em 9 de março, Clinton confirmou essa conversa e disse que queria ouvir seu relato na volta.
No funeral de Nixon, em 27 de abril, Clinton agradeceu os conselhos sobre a Rússia e recordou a última conversa telefônica e uma carta recebida no mês anterior. Nixon continuava a oferecer sua experiência a quem governava, até as últimas semanas de vida.
A Richard Nixon Foundation reúne os tributos de seu memorial, nos quais pessoas que o conheceram recordam sua determinação e sua contribuição pública.
Pat Nixon morreu em 1993. Richard Nixon sofreu um derrame em abril de 1994 e morreu em Nova York, no dia 22, aos 81 anos. Foi sepultado ao lado da esposa em Yorba Linda.
Quando deixou a Presidência, Nixon ainda tinha vinte anos de vida e trabalho pela frente. Os livros, as conversas com dirigentes e a atenção aos acontecimentos internacionais deram continuidade a uma formação iniciada muito antes da Casa Branca. Para quem se interessa por seu exemplo, há uma persistência que atravessa toda a biografia: ele voltou a trabalhar depois das derrotas e continuou a oferecer suas ideias depois de deixar o poder.
Fontes: Nixon Library/NARA, guia do acervo presidencial e Whittier College.