Relações bilaterais · 1969–1974

Nixon e o Brasil

Documentos americanos registram consulta presidencial e cooperação, mas também assimetria, atritos econômicos e conhecimento da repressão no Brasil.

O arquivo e seus limites

Richard Nixon e Emílio Garrastazu Médici governaram ao mesmo tempo entre 1969 e 1974. O Brasil vivia o período mais repressivo da ditadura militar e, simultaneamente, taxas elevadas de crescimento econômico. Para Washington, tamanho, posição geográfica e influência regional davam ao país importância estratégica. Para Brasília, a relação oferecia mercado, investimento, cooperação militar e reconhecimento internacional.

A principal base documental desta página é o capítulo sobre o Brasil no Foreign Relations of the United States. A coleção reúne memorandos da Casa Branca, do Departamento de Estado, da embaixada e de órgãos de inteligência. Ela permite reconstituir a política externa americana; não representa uma visão completa da sociedade brasileira. Relatórios de inteligência registram o que seus autores receberam, concluíram ou alegaram e precisam ser comparados com arquivos brasileiros.

Importância regional

Uma revisão de política de 1970 listou objetivos americanos como preservar a orientação favorável aos Estados Unidos, apoiar crescimento econômico e estimular modernização social. A linguagem revelava interesse na estabilidade brasileira e na direção internacional do regime, não uma aliança entre iguais.

Em dezembro de 1971, Nixon recebeu Médici e descreveu o Brasil como país que representava “metade da América do Sul”. Queria ouvi-lo antes das viagens a Pequim e Moscou. A consulta reconhecia influência regional, mas não convertia o Brasil em potência equivalente aos membros europeus da OTAN nem lhe concedia tutela sobre os vizinhos.

Repressão e cooperação

O Ato Institucional nº 5 permanecia em vigor. Prisões ilegais, tortura, censura e desaparecimentos faziam parte do sistema de governo. Autoridades americanas conheciam denúncias de violência e avaliavam seus efeitos sobre a relação bilateral.

Em abril de 1970, Viron Vaky advertiu, no memorando de cobertura citado por Kissinger a Nixon, que a identificação estreita com o governo Médici poderia afastar outros setores da sociedade brasileira e prejudicar a relação no longo prazo. Havia pressão no Congresso americano sobre cooperação policial e militar. Essas reservas coexistiram com a manutenção dos contatos e da assistência. A divergência interna em Washington não produziu rompimento com o regime.

Café, pesca e mar territorial

As disputas materiais ocupavam grande espaço nos memorandos. O Brasil defendia exportadores de café solúvel e café verde; os Estados Unidos respondiam a produtores, indústria e consumidores domésticos. Um acordo sobre café solúvel reduziu o contencioso em 1971, sem retirar preços e cotas da pauta.

A reivindicação brasileira de um mar territorial de 200 milhas contrariava a posição americana. A pesca de camarão converteu a divergência jurídica em apreensões, licenças e negociações. Café e pesca frequentemente deterioravam o clima político apesar da retórica presidencial de amizade.

A conversa de dezembro de 1971

O memorando da reunião Nixon–Médici registra discussão sobre investimento estrangeiro, Cuba e cenário hemisférico. Nixon disse que não pretendia julgar a forma de governo brasileira; Médici ofereceu avaliações sobre países vizinhos.

Um relatório de inteligência posterior atribuiu aos presidentes uma conversa secreta sobre a preservação do status quo regional e ações no Uruguai. O documento é relevante como registro de uma informação recebida pela CIA, mas não equivale a transcrição integral nem constitui, sozinho, comprovação independente de tudo o que relata.

Autonomia dentro da assimetria

Brasília buscava autonomia em comércio, mar territorial, tecnologia nuclear e atuação no mundo em desenvolvimento. A convergência anticomunista não eliminou interesses próprios. A diferença de poder econômico e militar, entretanto, limitava a margem brasileira.

Os rótulos de “satélite” e “parceiro igual” distorcem a relação em sentidos opostos. O Brasil negociava, resistia e exercia influência regional; os Estados Unidos dispunham de recursos e alcance muito maiores. A relação funcionava por barganha dentro dessa desigualdade.

Documentos centrais: revisão de política para o Brasil, 1970, memorando de Kissinger sobre a ajuda de 1970, com a advertência de Vaky, reunião Nixon–Médici e preparação para a reunião Nixon–Delfim Neto. No acervo deste site: Documentação hemisférica: Brasil nos anos Nixon.