Em julho de 1969, Richard Nixon determinou uma revisão ampla da política americana para o Brasil. Assistência, crédito, comércio, cooperação militar e desenvolvimento deveriam ser examinados em conjunto. Dois anos depois, recebeu Emílio Garrastazu Médici na Casa Branca e discutiu com ele questões regionais e internacionais.
Para o leitor brasileiro, essa atenção presidencial é uma parte importante da trajetória de Nixon. Seu governo examinou o país por meio de programas de assistência, comércio e cooperação, e ouviu seu presidente antes de decisões centrais da política externa americana. Brasília procurava obter capital, mercados e tecnologia; Washington considerava o Brasil um interlocutor de peso na América do Sul.
A decisão de estudar o Brasil
O National Security Study Memorandum 67, de 12 de julho de 1969, ordenou o exame dos programas americanos no país. A análise incluía AID, Eximbank, Peace Corps, vendas agrícolas, comércio, assistência militar e informação pública, além dos efeitos dessas iniciativas sobre desenvolvimento e instituições.
A revisão reunia instrumentos administrados por órgãos diferentes e solicitava alternativas para os cinco anos seguintes. A decisão de Nixon obrigava a examinar objetivos, custos e efeitos dos programas em conjunto.
A economia brasileira se expandia, e Washington procurava dividir responsabilidades com países de importância regional. O estudo devia relacionar essas transformações aos interesses americanos e às possibilidades de cooperação. A política para o Brasil passava a receber uma análise específica no Conselho de Segurança Nacional.
Cooperação e decisões de governo
A formulação da política envolveu Casa Branca, Departamento de Estado, Tesouro e agências de assistência. As propostas de crédito e ajuda precisavam ser avaliadas enquanto o estudo mais amplo ainda estava em andamento.
Em abril de 1970, Kissinger apresentou a Nixon as alternativas para um programa de ajuda de até US$ 187 milhões. O memorando recomendou negociar parte dos recursos e reservar a decisão sobre o restante. O registro de aprovação informa que Kissinger, em nome de Nixon, autorizou até US$ 112 milhões; US$ 75 milhões em empréstimos de programa ficaram adiados até a revisão da política.
O encaminhamento preservava a assistência sem antecipar todas as escolhas do estudo. Os valores eram autorizações para negociar os programas indicados no documento; o registro não demonstra, por si só, que todo o dinheiro tenha sido desembolsado.
O Brasil era governado por um regime militar, com o Ato Institucional nº 5 em vigor e restrições severas à vida política. Esse contexto aparecia nas avaliações americanas e nos debates sobre assistência. Conhecê-lo permite compreender as condições em que as decisões bilaterais foram tomadas.
O historiador Matias Spektor, em pesquisa publicada pelo CPDOC/FGV, estudou os contatos presidenciais e as diferenças de avaliação dentro dos dois governos. Sua interpretação destaca uma aproximação importante, conduzida por canais informais e sujeita a interesses que nem sempre coincidiam.
A consulta presidencial de 1971
Ao receber Médici em dezembro de 1971, Nixon descreveu o Brasil como país que representava “metade da América do Sul”. O memorando da reunião na Casa Branca registra a atenção dada à economia brasileira e às avaliações de seu presidente sobre a região.
Nixon explicou que desejava ouvi-lo antes das viagens a Pequim e Moscou, assim como consultaria outros amigos e aliados. A inclusão do Brasil nessa preparação dava a Médici acesso a uma conversa sobre decisões centrais da política externa americana. Os presidentes discutiram investimento estrangeiro e a situação de Argentina, Bolívia, Chile e Uruguai, entre outros assuntos.
Médici apresentava suas prioridades de crescimento e segurança. Nixon fazia perguntas sobre a região e sobre a continuidade dos contatos militares. As declarações registradas expressam as avaliações dos participantes; decisões posteriores devem ser acompanhadas nos documentos correspondentes.
Para o Brasil, o contato direto tinha valor diplomático. Oferecia a oportunidade de expor interesses e avaliações no nível presidencial, enquanto o Itamaraty continuava a conduzir as negociações cotidianas.
Comércio, crédito e tecnologia
A relação ganhava conteúdo em temas concretos. Café, têxteis, pesca, investimento e cooperação nuclear mobilizavam produtores, consumidores, empresas e órgãos dos dois países.
Na preparação da visita de Delfim Neto, em julho de 1972, um memorando de Alexander Haig destacou a conclusão de acordos sobre camarão, têxteis e energia atômica. O documento recomendava que Nixon mencionasse esses resultados.
O mesmo memorando tratava da alta dos preços do café, que preocupava consumidores e comerciantes americanos. Para o Brasil, o produto era uma fonte importante de divisas. A negociação precisava conciliar esses interesses e considerar as pressões internas sobre cada governo.
Nixon recebeu Delfim Neto em 28 de julho. A nota do FRUS confirma o encontro pelo diário presidencial, mas informa que não foi encontrado outro registro da conversa. O memorando permite conhecer a preparação e os acordos ali mencionados; suas sugestões de fala não devem ser tratadas como transcrição da reunião.
O espaço brasileiro
Diplomatas brasileiros buscavam ampliar mercados, obter tecnologia e preservar liberdade de decisão. A proximidade com Washington era avaliada à luz desses objetivos.
A atuação de João Augusto de Araújo Castro expressava a preocupação com uma ordem internacional que concentrava decisões entre poucas grandes potências. O Brasil procurava aumentar sua participação e usar as relações bilaterais para ganhar espaço.
O peso econômico e militar americano era muito maior, mas Brasília selecionava os compromissos que considerava vantajosos. Essa liberdade de decisão era parte do relacionamento que Nixon precisava levar em conta. A consulta presidencial se somava ao trabalho de diplomatas, ministros e órgãos técnicos dos dois países.
O reconhecimento em decisões
Nixon ordenou o estudo dos programas para o Brasil, recebeu Médici antes das viagens às grandes potências e acompanhou temas que iam da assistência econômica ao preço do café. A documentação permite reconhecer essa atenção em atos de governo, com datas, participantes e decisões.
O Brasil procurou usar a proximidade para ampliar suas próprias possibilidades. Nixon o incluiu nas consultas de sua política externa e manteve aberta a negociação em assuntos de interesse dos dois países. Para o leitor brasileiro, esse é um motivo concreto para estudar sua Presidência: o lugar dado ao Brasil pode ser acompanhado nos memorandos, nas reuniões e nos acordos.
