Em 26 de maio de 1972, Richard Nixon e Leonid Brezhnev assinaram em Moscou dois instrumentos distintos: o Tratado sobre Mísseis Antibalísticos e o Acordo Provisório sobre certas armas ofensivas estratégicas. Juntos, ficaram associados ao primeiro ciclo das Strategic Arms Limitation Talks, o SALT I.
Os acordos não desarmaram Estados Unidos e União Soviética. Seu objetivo era mais restrito: impor previsibilidade a áreas específicas da competição nuclear e reduzir incentivos para uma expansão ilimitada de sistemas defensivos e lançadores estratégicos.
O problema dos sistemas antibalísticos
Uma defesa capaz de neutralizar grande parte do arsenal adversário poderia parecer estabilizadora. Na lógica da dissuasão, porém, ela criava pressão para que o outro lado ampliasse suas forças ofensivas e preservasse a capacidade de retaliação.
O Tratado ABM limitou inicialmente cada país a dois complexos de defesa antimíssil: um para proteger a capital e outro para proteger uma área de lançadores intercontinentais. Um protocolo de 1974 reduziu o limite a um complexo por país. A intenção era impedir que a competição defensiva anulasse a vulnerabilidade recíproca sobre a qual repousava a dissuasão.
O que o Acordo Provisório limitou
O acordo ofensivo congelou por cinco anos o número de lançadores de mísseis balísticos intercontinentais e estabeleceu limites para lançadores em submarinos. As regras preservavam diferenças entre os arsenais e não impunham um teto abrangente a ogivas ou a veículos de reentrada múltipla, os MIRVs.
Essa lacuna foi importante. A quantidade e a capacidade destrutiva dos armamentos continuaram a crescer mesmo sob limites para certos lançadores. SALT I administrou parte da corrida; não resolveu sua dinâmica tecnológica.
Verificação sem inspeção permanente
Os acordos reconheceram o uso de “meios técnicos nacionais” de verificação, expressão que abrangia satélites e outras formas de observação. Cada lado se comprometeu a não interferir nesses meios e a não empregar ocultação deliberada que impedisse a verificação.
O arranjo permitiu controle sem depender de inspeções presenciais permanentes. Também mostrou que negociação com um adversário podia se apoiar em capacidade técnica e interesse recíproco, não em confiança política.
Détente e estratégia
SALT I integrou uma política mais ampla de détente com Moscou. A abertura à China aumentava as opções diplomáticas de Washington, enquanto o diálogo nuclear procurava reduzir um risco específico da relação soviético-americana. Os dois processos se reforçavam, mas não eram uma única operação.
Para Nixon, negociar limites era compatível com manter força militar e competição geopolítica. Essa combinação distinguia détente de reconciliação ideológica. Os acordos coexistiram com conflitos indiretos, modernização de arsenais e profundas diferenças sobre a ordem internacional.
Legado
SALT I estabeleceu linguagem, procedimentos e expectativas que influenciaram negociações posteriores. Seus limites são tão importantes quanto seus resultados: não conteve os MIRVs, aceitou assimetrias e teve caráter temporário no campo ofensivo.
O principal êxito foi demonstrar que as duas superpotências podiam codificar restrições verificáveis no centro de sua rivalidade. A administração Nixon não encerrou a corrida nuclear, mas substituiu uma parte da competição sem regras por uma estrutura negociada. Em 1972, isso já representava uma mudança estratégica substancial.
